Subcompacto proporciona ótima dirigibilidade, graças à mecânica atual e ao  projeto eficiente; quanto ao bolso, modelo mostrou-se muito econômico, mas entrega poucos equipamentos de série mesmo na versão intermediária move up!, avaliada

Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

Ocorreu algo inusitado no último lançamento de carro do qual participei: o modelo que estava sendo apresentado à imprensa, que por sinal nem era da Volkswagen, foi pouco comentado pelos colegas nos bastidores. A maioria dos jornalistas (inclusive eu) trocou figurinhas sobre o up!. Quase todos já havíamos dirigido o carrinho e tiramos conclusões consensuais sobre dois aspectos: primeiramente, concordávamos que o hatch de origem alemã era ótimo como produto, graças ao projeto atual e ao conjunto mecânico moderno para o segmento de entrada (falaremos mais detalhadamente sobre isso adiante). “Ele é muito esperto. Provavelmente é o 1.0 mais ágil que já dirigi, e olha que já dirigi vários”, elogiou um dos colegas. Outro respondeu: “e ele é espaçoso em relação às dimensões externas, né? Apesar de ser bem menor que o Gol, a diferença entre o espaço interno dos dois é mínima”. Todos nós, porém, também ponderamos que os preços cobrados pela linha haviam ficado mais altos que o esperado (também retomaremos esse tópico à frente). “Até não acharia caro se ele fosse mais recheado. Ar condicionado de série só nas versões topo não dá”, criticou um repórter. Na sequencia, outro profissional emendou: “pois é, e a versão básica não tem nem conta-giros. São umas coisinhas que custam mixaria pro fabricante, mas que são muito notadas pelo consumidor. A maioria dos caras que entram na concessionária pra trocar de carro nem sabe da existência dos aços de alta resistência da estrutura ou da superioridade do motor de três cilindros em relação ao de quatro do Gol, mas logo nota a simplicidade dos instrumentos no painel do take up!”.

A conversa ainda rendeu muitas outras considerações sobre o up!, mas vamos encerrar a narração por aqui. Afinal, precisaríamos de muitos parágrafos para fazer todas as transcrições e, ademais, muitas outras ponderações ainda poderiam ser feitas. O fato é que a repercussão sobre o subcompacto da Volkswagen é enorme, seja nas redes sociais, na roda de amigos ou até mesmo entre jornalistas automotivos. Se há um ditado que cai como uma luva para o up!, seria aquele que proclama:  “falem bem ou falem mal, mas falem de mim ”.   E não é por acaso que o falatório em torno do up! é tão grande. Afinal, ele é o lançamento mais importante da Volkswagen no país durante os últimos anos. Além do mais, ele segue uma fórmula diferente de outros compactos de entrada: enquanto os carros populares no Brasil são, normalmente, projetos desenvolvidos especificamente para mercados emergentes, o hatch em questão tem, literalmente, origem alemã, pois está à venda em toda a Europa (com algumas diferenças, é verdade, mas o projeto é, a grosso modo, o mesmo). Além do mais, ele é o menor carro atualmente produzido no Brasil e, por fim, traz um motor de apenas três cilindros, que embora não seja o primeiro desse tipo por aqui, ainda causa estranheza em muitas pessoas.

TRÊS SÃO DEMAIS Se você é desses que torce o nariz para o motor do up!, convido-o a se desarmar dos preconceitos. É verdade que, quanto à durabilidade, esse propulsor ainda tem uma reputação a construir. No mais, podemos afirmar sem medo: ele é ótimo. Para começar, é o 1.0 aspirado mais potente do mercado brasileiro, com 82/75 cv de potência a 6.250 rpm e 10,4/9,7 kgfm de torque a 3.000 rpm, com etanol e gasolina, na ordem. Os ótimos números são fruto da tecnologia embarcada:  há 12 válvulas (quatro por cilindro) e comando de admissão variável. Além do mais, bloco e cabeçote são confeccionados em alumínio, não há tanquinho de partida a frio e o acionamento dos comandos é correia dentada. Além de forte, ele também é suave, sem asperezas durante o funcionamento, e ao contrário do que ocorre em outros tricilíndricos, não provoca vibrações em excesso.

Um motorzinho eficiente aliado a uma carroceria leve (a versão avaliada pesa 958 kg) não poderia levar a outro resultado: o up! é um carro ágil. Se me permitem, faço minhas as palavras do colega citado no primeiro parágrafo: provavelmente, o hatch da Volkswagen é o 1.0 mais esperto que já dirigi. Em qualquer faixa de rotação, mesmo nas mais baixas, há sempre boas respostas, dentro é claro das limitações da cilindrada. Ademais, o câmbio bem-escalonado e com ótimos engates também ajuda a extrair todo o potencial do motor. Aliás, não só o desempenho, mas a dirigibilidade de modo geral, agrada. A estabilidade em curvas é muito boa, fruto da calibragem firme da suspensão, que é tradicional, independente do tipo McPherson na dianteira e semi-independente por eixo de torção na traseira.. Os pneus, que são “verdes” e priorizam o baixo atrito para economizar combustível, começam a cantar cedo, mas há pouca inclinação e o hatch só dá sinais de subesterçamento se houver abuso. Porém, a calibragem mais durinha do sistema cobra seu preço quando se trafega por pisos irregulares, onde parte das imperfeiçoes do solo é transmitida ao habitáculo, porém ainda em nível aceitável. Por fim, a direção tem assistência elétrica (coisa rara entre os carros 1.0) e se mostrou igualmente eficiente, proporcionando leveza em manobras e firmeza em alta velocidade.

No consumo, o up! também fez bonito. Durante nosso teste, com gasolina no tanque, ele cravou 14,2 km/l em circuito urbano e 19,6 km/l  em percursos rodoviários. São simplesmente as melhores marcas que um veículo movido apenas por motor a combustão já alcançou nas medições do Autos Segredos. Só o Toyota Prius, que é híbrido, conseguiu marcas melhores em nossas mãos. Vale destacar que a unidade avaliada estava equipada com ar-condicionado e que o equipamento foi utilizado durante as aferições. No mais, como sempre, lembramos que o gasto de combustível está relacionado a uma série de variáveis, como as condições do trânsito, as características das vias, o relevo e o estilo de condução do motorista.

BEM-APROVEITADO Apesar das dimensões externas bastante compactas, o subcompacto da Volkswagen oferece espaço suficiente para quatro pessoas de estatura média. As duas da frente viajarão folgadas. As de trás não terão sobras de espaço, mas tampouco ficarão espremidas. O panorama é outro, contudo, se ideia for transportar três adultos no banco traseiro, que é pequeno. Nesse caso, haverá considerável aperto. Duas pessoas mais altas atrás também podem ter problemas para acomodar as pernas, mas ainda não rasparão a cabeça no teto.  É bem como o jornalista citado no primeiro parágrafo falou: a diferença das medidas internas em relação ao irmão Gol é mínima. O porta-malas está na média da categoria, com 285 litros de capacidade. A desvantagem é que, no up!, o compartimento é curto e bastante verticalizado, fazendo com que os volumes viagem uns sobre os outros. Mas o fabricante tentou amenizar um pouco esse problema, instalando uma espécie de divisória móvel dentro do bagageiro: o nome oficial dessa solução é s.a.v.e (sistema de ajuste variável de espaço). Solução simples, mas que se mostrou bastante útil. O vão de entrada é amplo e a base, não muito alta, o que facilita as operações de carga e descarga, enquanto o banco traseiro rebatível permite transportar objetos maiores. Pena que o batente da tampa não traga proteção plástica e exponha a lataria a danos.

O segredo para o bom aproveitamento de espaço do up! está na posição elevada dos bancos: ele não chegam a ser tão verticalizados quanto os do Fox, mas são bem mais altos que os do Gol. Além de liberar mais área para as pernas, essa solução ainda favorece a visibilidade. O motorista goza de amplo campo visual para a frente e para os lados. Para trás, as colunas “C” mais largas restringem um pouco , mas o resultado ainda pode ser considerado satisfatório. A posição de dirigir é ergonomicamente correta, mas o volante, apesar de ter boa pegada, fica devendo o ajuste em profundidade. Essa peça tem apenas regulagem de altura, que também está presente no banco.  Esse último, porém, merece ressalva por ter apoio curto do assento para as coxas. Para a coluna, a acomodação é correta. Os comandos do painel têm fácil acesso e utilização, enquanto os instrumentos proporcionam boa leitura, com exceção do conta-giros, que é pequeno demais. Ao menos o cluster é completo e inclui termômetro do fluido de arrefecimento do motor: esse marcador não é analógico, e sim digital, acessível em meio às funções do computador de bordo.

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O acabamento está muito longe de ser luxuoso, mas é satisfatório para um automóvel popular. Embora todo o painel e os forros de porta sejam revestidos em plásticos rígidos, os arremates são caprichados, sem desalinhamentos ou encaixes ruins. Também não notamos parafusos descobertos e rebarbas, que infelizmente são comuns em veículos de entrada. As faixas de lataria à mostra dividem opiniões, mas na prática não chegam a causar nenhum tipo de desconforto.  Os faróis monoparabólicos tiveram resultado razoável em termos de iluminação e os limpadores de para-brisa mostraram-se eficientes (não faltou chuva durante nossa estadia com o up!).

POUCO RECHEIO O Autos Segredos testou a versão intermediária move up!, com todos os opcionais. Entre os itens de conforto, essa configuração traz, de série, maçanetas e retrovisores na cor da carroceria, computador de bordo, abertura elétrica do porta-malas, alerta de faróis acesos, tomada 12V e limpador, lavador e desembaçador traseiros. E só. Ar condicionado, direção com assistência elétrica, vidros, travas e retrovisores elétricos, chave com telecomando, rodas de liga leve, sistema de som, bancos com revestimento em couro sintético, sensores de estacionamento traseiro e central multimídia Maps and More são vendidos à parte. Vale fazer uma ressalva sobre esse último item, que equipava a unidade testada: embora seja original de fábrica e conectada diretamente ao painel, a tela multimídia é removível. Assim, ao estacionar o veículo na rua, é recomendável retirá-la e leva-la no bolso, sob o risco de ter o carro arrombado e o equipamento furtado. A adoção de um sistema fixo e, de fato, integrado ao painel, como é oferecido em outros modelos, não causaria esse desconforto.

Um tanto pelada em relação aos itens de conforto, a configuração move up! faz mais bonito quanto aos itens de segurança. Além dos airbags frontais e dos freios ABS, agora obrigatórios, o hatch dispõe de encostos de cabeça para todos e do importante sistema de ganchos padrão Isofix para fixação de cadeirinhas, item ainda raro no Brasil e que não é disponibilizado até em automóveis de categorias superiores. Há ainda outros pormenores raros em carros de entrada, como alerta sonoro de cintos de segurança desafivelados e acionamento automático do pisca-alerta em frenagens bruscas. Embora nossa avaliação considere apenas os equipamentos, vale lembrar ainda os ótimos resultados que o subcompacto obteve no crash-test do Latin NCAP, conquistando cinco estrelas na proteção para adultos e quatro na proteção para crianças e sagrando-se como o carro nacional mais seguro a passar pelo crivo da instituição em questão. Porém, isso não livra o up! de algumas falhas: em um modelo que tem a segurança como principal argumento de vendas, é decepcionante encontrar um cinto subabdominal para o passageiro do centro do banco traseiro. Também seria de se esperar a oferta, ainda que opcional, de airbags laterais, pelo menos nas versões top de linha. Os freios imobilizaram o veículo sem desvios de trajetória, mas o pedal poderia ter mais modularidade. O sistema atuou bem,  não chegou a se destacar frente a concorrência.

PONTO DE PARTIDA Feitas todas as nossas considerações sobre o up!, eis a hora de voltar a um assunto de extrema importância citado no primeiro parágrafo: o preço.  A versão move up!, avaliada, custa a partir de R$ 30.300, mas traz poucos itens de série. Com tudo que se tem direito, o valor dispara até R$ 40.740 e torna-se proibitivo. Assim, um potencial consumidor tem que fazer escolhas e optar por aquilo que é realmente essencial. Assim sendo, uma simulação que exclui sensores de estacionamento (dispensáveis em um carro tão pequeno), rodas de liga, bancos em couro, central multimídia e som de fábrica, mas mantém vidros, travas e retrovisores elétricos, ar-condicionado e direção elétrica, deixa o preço em R$ 35.620, patamar que também é atingido por outros carros 1.0, mas que ainda não é exatamente competitivo. Ainda que o up! seja um carro de construção mais cara que outros populares, o que acaba onerando o preço final,  pensamos que a Volkswagen deveria equipar um pouco mais todas as versões sem cobrar mais por elas. O move up!, por exemplo, que é o intermediário na linha, poderia trazer ao menos direção assistida e vidros e travas elétricas de série. Após nossa convivência, voltamos ao ponto de partida e reafirmamos nossa opinião, compartilhada por outros colegas jornalistas, sobre o subcompacto: a primeira, de que ele é muito bom como produto: é gostoso de dirigir, anda bem para sua cilindrada, gasta pouco combustível, tem habitáculo bem-aproveitado é bastante seguro. A segunda, de que realmente o fabricante poderia adotar uma política mais agressiva de preços ou rechear melhor o carrinho. Ou melhor ainda: fazer as duas coisas.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas)  7 8
Consumo (cidade e estrada) 10 9
Estabilidade  8 8
Freios  7 7
Posição de dirigir/ergonomia  9 9
Espaço interno  6 6
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade)  7 8
Acabamento  6 7
Itens de segurança (de série e opcionais)  7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais)  6 6
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 8 9
Relação custo/benefício 6 6

FICHA TÉCNICA
» MOTOR
Dianteiro, transversal, três cilindros em linha, 12 válvulas, 999 cm³ de cilindrada, potência de 82cv com etanol e 75 cv com gasolina,  a 6.000 rpm, e torque de 10,4 kgfm com etanol e 9,7 kgfm com gasolina, a 3.000 rpm.

» TRANSMISSÃO
Tração dianteira e câmbio manual de cinco marchas.

» ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h
12,4 segundos com etanol e 12,6 segundos com gasolina

» VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
165 km/h com etanol e 163 km/h com gasolina

» DIREÇÃO
Do tipo pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

» FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

» SUSPENSÃO
Dianteira, independente, do tipo McPherson; e traseira, semi-independente, do tipo barra de torção

» RODAS E PNEUS
Rodas de liga leve (opcionais) de 14 polegadas, pneus 175/70 R14

» DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,605; largura, 1,645; altura, 1,500; distância entre-eixos, 2,421

» CAPACIDADES
Tanque de combustível, 50 litros; porta malas, 285 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 412 quilos; peso, 958 quilos

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos