Conjunto mecânico formado por motor 2.0 turbo e câmbio automático seis marchas é o maior atrativo do modelo; preço é alto, mas há concorrentes ainda mais caros

Nilo Soares
Especial para o Autos Segredos

O Tiguan é um carro que, para muitos, passa despercebido dentro da linha Volkswagen. Ele não evoca a mesma esportividade de outros modelos equipados com o motor 2.0 TSI, como Jetta Highline, Fusca ou Golf GTI, tampouco carrega a tradição de outros importados da marca, como Passat e Touareg. Porém, após o teste do Autos Segredos, ficou claro que o crossover de origem alemã tem qualidades consistentes, que vão além do que as primeiras impressões podem sugerir.

Uma das maiores virtudes do Tiguan não é visível para quem está do lado de fora, mas é logo notada para quem se senta ao volante: trata-se justamente do bom motor 2.0 TSI da Volkswagen, já conhecido do Autos Segredos e de parte dos consumidores. Moderno, o propulsor dispõe de duplo comando de válvulas, variável na admissão, com corrente de acionamento, resfriador de ar, turbocompressor e injeção direta. O bloco é confeccionado em ferro fundido, e o cabeçote, em alumínio. Todo esse arsenal resulta em 200 cv de potência a 5.100 rpm e 28,5 kgfm de torque a 1.700 rpm. O câmbio, também já conhecido, é o automático de seis marchas tiptronic (e não o DSG, de dupla embreagem), conectado a um sistema de tração integral permanente, que atua sob demanda. Para finalizar, há conjuntos de suspensões independentes nas quatro rodas, do tipo McPherson na frente e multilink atrás, ao passo que a direção tem assistência elétrica progressiva, que deixa o volante muito leve em manobras e suficientemente firme em alta velocidade. Em termos de engenharia, portanto, não há o que reclamar do crossover.

O motor forte, afinado com os demais componentes mecânicos, dá um ótimo desempenho ao veículo. Em função do peso mais elevado, de 1.622 kg, a performance não chega a ser tão boa quanto a do Fusca e o do Jetta, mas ainda assim, o modelo anda muitíssimo bem. Nesse aspecto, o Tiguan chega a ser até surpreendente para um crossover, que por natureza tem proposta familiar, e não performática. Em qualquer faixa de rotação, um leve toque no acelerador é sempre respondido de imediato, proporcionando comportamento até esportivo. O câmbio automático repetiu o bom comportamento das outras vezes em que foi avaliado: a central eletrônica “compreende” bem o que o motorista quer e faz as mudanças de marchas nos momentos certos, com suavidade e sem trancos. O escalonamento é correto, sem buracos, e a 120 km/h o conta-giros registra apenas 2.200 rpm. O sistema traz ainda a opção de fazer trocas sequenciais, por meio de borboletas no volante, e o programa Sport, que basicamente o faz operar em rotações mais altas. A dinâmica está no mesmo nível e impressiona para um carro de carroceria elevada. Nas curvas, o modelo não mostra a precisão de um hatch ou um sedã, mas parece estar bem acima da média para o segmento de crossovers. O problema é que a firmeza em trechos sinuosos se deve, em grande parte, ao acerto bastante rígido da suspensão. Essa característica desabilita o uso em vias rurais ou de pavimentação ruim, pois as imperfeições do solo são copiadas com perfeição para o habitáculo. Embora visualmente o Tiguan lembre um jipinho (e a Volkswagen adote o slogan “é outra categoria de off-road”), seu habitat é mesmo o asfalto.

AMBIENTE GERMÂNICO A discrição continua no interior do Tiguan, que é tipicamente alemão: sóbrio, decorado com tons escuros, e muito funcional. O painel completo, com instrumentos analógicos, tem leitura simples e comandos de fácil acesso. O motorista senta-se em um banco muitíssimo confortável, revestido em couro, com ótimo apoio para as pernas e a coluna, dotado de abas laterais generosas que seguram bem o corpo em curvas e equipado com ajuste de altura elétrico. O volante, também regulável em altura e profundidade, é conhecido de outros modelos da Volkswagen e proporciona ótima pegada. A posição de dirigir é elevada, como em qualquer crossover, mas agradável. Por conta da altura extra da carroceria, a visibilidade é boa para frente e para as laterais e razoável para trás. Os retrovisores são bem-dimensionados e ainda há auxílio de sensores de estacionamento na frente e atrás. Os faróis de todas as versões incorporam luzes diurnas de LEDs, mas a unidade avaliada ainda dispunha de fachos direcionais com lâmpadas de xênon, com resultado excepcional em termos de iluminação.

O espaço interno é amplo e bem-aproveitado. Quatro adultos, mesmo que altos, sentam-se com folga para a cabeça e os joelhos. Se a ideia for transportar cinco pessoas, a coisa complica um pouco, pois o espaço transversal não é dos maiores. O porta-malas tem capacidade para 470 litros, valor satisfatório, mas que não chega a se destacar no segmento.  O vão de acesso ao compartimento é amplo e permite a entrada de volumes grandes. O acabamento é muito bom, com arremates perfeitos e plásticos de boa qualidade. No painel e na forração superior da porta, há material emborrachado, muito macio ao toque. A unidade avaliada, contudo, decepcionou por apresentar vários ruídos provenientes do teto solar, do tipo panorâmico, em algumas situações. Outro ponto a ser corrigido é a persiana que forra o teto de vidro, confeccionada em tecido muito fino, que acaba permitindo a incidência de raios solares no habitáculo. Esse inconveniente, aliás, já foi notado pelo Autos Segredos em outros veículos da marca, como o e o .

PACOTE RAZOÁVEL DE FÁBRICA E MUITOS OPCIONAIS De série, o Tiguan traz ar-condicionado digital com duas zonas de temperatura, rádio/CD player com leitor MP3 e entrada USB, computador de bordo, retrovisor interno eletrocrômico, volante multifuncional, revestimento em couro, sensores de chuva e crepuscular e freio de mão eletrônico com assistente de partida em rampa. Opcionalmente, são oferecidos em conjunto câmera de ré e o auxiliar de estacionamento park assist, que literalmente coloca o carro em vagas paralelas sozinho. Presente na unidade avaliada, o equipamento funcionou muitíssimo bem quando foi solicitado. Também estão disponíveis à parte sistema de partida sem chave, rodas aro 18” e os já citados faróis de xênon direcionais e teto solar panorâmico.

O pacote de equipamentos de segurança é completo já de série: inclui seis airbags (frontais, laterais e do tipo cortina), ganchos para fixação de cadeirinhas infantis (padrão Isofix), controles eletrônicos de estabilidade e tração e sistema de identificação de fadiga do motorista. Os ferios, a disco nas quatro rodas com ABS, esbanjaram eficiência, imobilizando o Tiguan em espaços bastante curtos.

Apesar de todo o aparato tecnológico presente na parte mecânica do Tiguan, os números de consumo foram piores que o esperado. Sempre abastecido com gasolina (até porque não há sistema flex) o modelo alcançou médias em torno de 6 km/l na cidade e de 9 km/l na estrada. Ainda que ele não tenha a proposta de ser econômico, era de se esperar mais; o elevado peso do modelo, que soma 1.585 kg na balança, é certamente um dos fatores que explica a gastança acima do desejável. Ao menos o tanque é grande, com capacidade para 63,5 litros, o que garante autonomia de 571,5 km. Como de praxe, fica a observação: vários fatores, como relevo, estilo de condução do motorista e condições das vias influenciam no consumo de combustível dos automóveis.

CARO, MAS AINDA COMPETITIVO FRENTE À CONCORRÊNCIA Mas afinal, a compra de um Tiguan vale a pena? Impossível responder a essa resposta sem falar em preço. O SUV é vendido em versão única, mas como já citado, pode ser recheado com muitos equipamentos extras. Assim, o valor vai de R$ 115.750 para unidades com o pacote básico até R$ 153.610, para as equipadas com todos os opcionais disponíveis. Os exemplares completíssimos, portanto, são caros demais e já invadem a faixa dos veículos de marcas premium.  Porém, como a lista de itens de série já traz os itens mais importantes, a configuração mais em conta pode valer a pena para quem faz questão de um crossover; não porque a quantia cobrada pela Volkswagen seja atrativa, e sim porque todos os concorrentes diretos são igualmente salgados. As versões top de Honda CR-V e Toyota RAV4, por exemplo, (que são as únicas de suas respectivas linhas a incorporar tração 4×4) saem respectivamente por R$ 114.900 e R$ 129.590, mas não vão muito além em termos de equipamentos. Em relação aos dois rivais orientais, o Tiguan leva vantagem na parte mecânica, com motor bem mais potente.

AVALIAÇÃO Nilo Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 10 10
Consumo (cidade e estrada) 6 6
Estabilidade 8 8
Freios 9 9
Posição de dirigir/ergonomia 9 8
Espaço interno 8 7
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 9 9
Acabamento 8 7
Itens de segurança (de série e opcionais) 8 8
Itens de conveniência (de série e opcionais) 7 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 10 10
Relação custo/benefício 6 6

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, com injeção direta, turbocompressor e intercooler, a gasolina, 1.984 cm³ de cilindrada, 200cv de potência máxima a 5.100 rpm, 28,5 mkgf de torque máximo a 1.800 rpm

TRANSMISSÃO
Tração integral permanente, câmbio automático sequencial de seis marchas

ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
8s5

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
207 km/h

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, independente, multilink, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 17 polegadas, pneus 235/55 R17

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,427; largura, 1,809; altura, 1,665; distância entre-eixos, 2,605

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 63,5 litros; porta malas: 470 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 645 quilos; peso: 1.585 quilos

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos