Compacto premuim de origem francesa mostra que não é apenas um rostinho bonito;  ele tem qualidades consistentes, que incluem comportamento dinâmico divertido e boa oferta de equipamentos de conforto

Nilo Soares
Especial para o Autos Segredos

Apesar de a Peugeot produzir veículos no Brasil desde 2001, quando a fábrica da PSA em Porto Real (RJ) foi inaugurada, até pouco tempo atrás só havia, de fato, um modelo nacional da marca francesa: o 206. O 207 e seus derivados (sedã Passion, perua SW e picape Hoggar) consistiam, basicamente, em um face-lift do primeiro modelo. Assim, fica clara a importância comercial do 208, que além de ser o segundo produto da empresa feito no país, também tem de superar as vendas do antecessor, que não foi exatamente um sucesso. Em nosso primeiro contato, o hatch agradou, demonstrando um  verdadeiro salto evolutivo em relação ao antecessor.

 
SOB MEDIDA Já ouviu a expressão “vestir o carro”? Pois ela cai muito bem para o 208. O hatch franco-brasileiro tem posição de dirigir cativante. O volante, de tão pequeno, lembra o de um fliperama, ao passo que o quadro de instrumentos, completo, com termômetro do fluido de arrefecimento, situa-se acima deste, e não no meio do aro. Essa solução chama atenção logo de cara e é a mais marcante na dirigibilidade do compacto. A condução é, de fato, diferente do convencional, mas ainda assim muito agradável. Em uma época de pouca ousadia nas soluções internas da industria automotiva, é muito bom ver uma iniciativa que ousa e agrada simultaneamente.
É verdade que, talvez pela falta de costume com o arranjo interno, a melhor posição ao volante não é encontrada logo de cara. Porém, a coluna de direção é ajustável em altura e profundidade, e o banco do motorista também regula em altura. Os bancos, aliás, mantém a atmosfera de interação com o condutor: com abas laterais bastante pronunciadas, seguram bem o corpo nas curvas. A visibilidade para a frente também é boa, graças ao amplo para-brisa. Para trás, a largura das colunas C atrapalha um pouco, mas o resultado ainda é razoável. Contudo, não adiantaria oferecer boas acomodações para o motorista se o conjunto mecânico não fizesse a sua parte.
MAQUINÁRIO A versão avaliada, Allure, é movida por um motor de 1.449 cm³ (exatamente no meio do caminho entre um 1.4 e um 1.5), capaz de render 89 cv / 93 de potência a 5.500 rpm e 13,5 kgfm / 14,2 kgfm a 3.000 rpm, com gasolina e etanol, na ordem. Os números estão longe de impressionar (são inferiores inclusive aos de alguns 1.4 do mercado), mas não chegam a decepcionar. Esse propulsor não é exatamente novo: trata-se, essencialmente, do 1.4 que empurrava os demais hatches que a Peugeot fabricou no Brasil e a primeira geração do Citroën C3, porém com a cilindrada ligeiramente ampliada, devido ao aumento do curso dos pistões. Trata-se de um propulsor com pouca tecnologia embarcada, com aspiração natural e cabeçote de oito válvulas sem variação no tempo de abertura, com movimentação por correia dentada. O único toque de sofisticação é o material de confecção: alumínio, inclusive no bloco. Essas características já antecipam o comportamento do propulsor: em baixa rotação,ele é bastante esperto, mas não tem brilho em alta. Por outro lado, o funcionamento se mostrou bastante suave, inclusive em regimes elevados.
A suspensão, que segue o tradicionalíssimo esquema de unir o sistema independente do tipo McPherson na dianteira com um semi-independente por eixo de torção na traseira, tem ótima calibragem, proporcionando estabilidade de gente grande ao compacto. Em trechos sinuosos, ele entrega aderência até surpreendente e faz sorrisos aparecerem no rosto do motorista. E em trajetos de asfalto em condições ruins, o condutor tampouco ficará de mau-humor, embora o rodar esteja longe de ser macio. Algumas das imperfeições do piso são até transferidas para o habitáculo, mas em nível aceitável. A direção, com assistência elétrica, por sua vez, também agradou. Com ótima progressividade, ela deixa o volante muito leve em manobras e suficientemente firme em alta velocidade. O único componente que compromete um pouco a dirigibilidade é o câmbio, que no caso é manual de cinco marchas: os engates, ainda que macios, são imprecisos, o curso da alavanca é longo e o trambulador faz muito barulho. Ao menos o escalonamento é correto, sem buracos entre as marchas. Embora não tenhamos experimentado a versão automática, é de se imaginar que seu comportamento não será melhor. Afinal, ela herdou a antiquada caixa do 207, dotada de apenas quatro marchas.
Além de proporcionar vitalidade, o conjunto mecânico do 208 mostrou-se eficiente quanto ao gasto de combustível. Com gasolina no tanque, as médias ficaram em torno de 14,1 km/l na estrada, sendo que a melhor marca foi de 15,4 km/l, e a pior, de 13,0. Já na cidade, o consumo variou menos, entre 9,1 e 10,5 km/l, com média de 10,0 km/l. Vale lembrar que diversos fatores interferem no consumo de um automóvel, entre os quais as características das vias, o relevo, as condições do trânsito e o estilo de condução do motorista.
HABITAÇÃO Enquanto o motorista conta com uma interface bastante interativa e com um conjunto mecânico competente, os passageiros gozam de um ambiente igualmente acolhedor. O acabamento interno é bom, com encaixes caprichados e sem rebarbas. Porém, não espere materiais sofisticados: tudo é revestido em plástico comum, rígido. Seria injusto, entretanto, condenar o 208 por essa característica. Afinal, entre os compactos, mesmo aqueles situados na subcategoria premium, tal material é padrão. Os bancos são envolventes e acomodam muito bem as pernas e a coluna, além de proporcionarem firmeza nas curvas, graças aos apoios laterais generosos. O revestimento é em tecido sintético, mas agradável ao toque. O espaço é mais amplo na frente. Atrás, até que o vão para as pernas é generoso dentro do que se espera de um hatch, mas a altura do teto faz com que passageiros com 1,80 metro ou mais encostem a cabeça no forro, ao menos nas unidades equipadas com teto solar de vidro fixo, como a avaliada, responsável por roubar alguns centímetros da área vertical do habitáculo. Por fim, o porta-malas comporta 285 litros de bagagem, valor compatível com as dimensões externas do modelo, mas a base muito alta dificulta as operações de carga e descarga.
A lista de itens de série da versão avaliada, a Allure, é ampla. Inclui retrovisores, travas e vidros elétricos nas quatro portas, ar-condicionado (com ajustes manuais), computador de bordo, volante multifuncional revestido em couro e rodas de liga leve aro 15″, além do já citado teto de de vido e da central multimídia, com tela sensível ao toque, conexão Bluetooth, entrada USB e navegador GPS. Quanto aos equipamentos de conforto, não há o que reclamar.
O pacote de itens de segurança, por sua vez, não vai muito além do trivial. Além dos airbags frontais e dos freios ABS, agora obrigatórios no Brasil, o hatch traz cintos de três pontos para todos os ocupantes, inclusive para quem vai no centro do banco traseiro, mas ainda fica devendo o importante quinto encosto de cabeça. Presença útil é a das luzes diurnas de LEDs, incorporadas aos faróis, que por sinal têm parábolas duplas e iluminam muito bem, além de contarem com o auxílio de refletores para neblina. Os limpadores também cumpriram seu papel, varrendo boa área e funcionando em silêncio. As frenagens são seguras, sem desvios de trajetória ou travamento das rodas. Ainda que a versão Allure seja a intermediária da linha, bem que o Peugeotzinho poderia oferecer mais airbags ou controles eletrônicos de estabilidade, ainda que fosse configuração Griffe, top de linha. Esses equipamentos, contudo, são indisponíveis por aqui.
FRANCESINHO ATRAENTE Com o 208, a Peugeot conta com um representante de peso no segmento dos compactos. Apesar de não dispor de tecnologias de última geração na parte mecânica ou de equipamentos de segurança mais sofisticados, ele proporciona ótima dirigibilidade e bom nível de conforto aos ocupantes, por um preço bastante competitivo: vendida com pacote único de equipamentos (sem opcionais), o Allure tem preço sugerido de R$ 46.990. Não é exagero dizer que esse valor, considerando a modernidade do projeto e a lista de itens de conforto, dá ao hatch uma relação custo/benefício muito atraente no contexto atual do mercado brasileiro.
AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 7 8
Consumo (cidade e estrada) 8 7
Estabilidade 8 7
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 9 8
Espaço interno 7 8
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 6 6
Acabamento 8 8
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 8 7
Relação custo/benefício 9 8

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.449 cm³ de cilindrada, 89cv (g)/93cv (e) de potência máxima a 5.500  rpm, 13,5 kgfm (g)/ 14,2  mkgf (e) de torque máximo a 3.000  rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10s9 (e)

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
181km/h (e)

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos sólidos na dianteira, tambores na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, semi-independente, eixo de torção, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio 5,5 x  15, pneus 195/60 R15

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,966; largura, 1,702; altura, 1,472; distância entre-eixos, 2,541

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 55 litros; porta malas: 285 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 435 quilos; peso: 1.086 quilos


Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos