Transmissão de quatro marchas da versão Dynamique 2.0 16V tem funcionamento suave, mas não aproveita bem a força do propulsor 

teste_renault_duster_at_30Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

A Renault disponibiliza quatro diferentes configurações mecânicas para a versão top de linha Dynamique. A 1.6 16V já foi avaliada pelo Autos Segredos (veja aqui). As demais são equipadas com o mesmo motor 2.0 16V, mas têm diferentes conjuntos de transmissão: duas trazem câmbio manual de seis marchas, porém uma tem tração dianteira, e a outra, integral. A última vem com caixa automática de quatro velocidades e tração 4×2. É exatamente ela que é tema deste teste, cujo foco está justamente no comportamento do conjunto mecânico. Informações mais detalhadas sobre outros quesitos podem ser vistas no teste com a unidade que dirigimos anteriormente.

teste_renault_duster_at_27O motor 2.0 16V da Renault (não o confunda com o de origem Nissan que equipa o Fluence) passou por um remapeamento que lhe rendeu mais potência. Agora, são 143 cv com gasolina e 148 cv com etanol, a 5.750. Já os valores de torque máximo não aumentaram: seguem em 20,2 kgfm com o derivado do petróleo e em 20,9 com o combustível vegetal. A diferença é que a atualização melhorou a distribuição dessa força, principalmente em rotações mais baixas. Segundo o fabricante, a 2.250 rpm, há 17,9 kgfm com gasolina e 18,8 kgfm com etanol, o que constitui ganhos, respectivamente, de 0,5 kgfm e de 1 kgfm com cada combustível. A arquitetura do propulsor, todavia, não passou por mudanças. O bloco é confeccionado em ferro fundido, o cabeçote é de alumínio e há duplo comando de válvulas no cabeçote, sem variação, com movimentação por correia dentada.

teste_renault_duster_at_14Graças ao motor que consegue entregar bons números de potência e torque, associado a um peso contido de 1.294 kg, o Duster entrega um desempenho bom. O modelo arranca com rapidez e entrega acelerações condizentes. A sensação, entretanto, é de que a performance poderia ser bem melhor se houvesse um câmbio mais atual, com mais marchas. A antiquada transmissão de quatro velocidades que equipa o SUV sufoca um pouco o propulsor, pois não consegue impedir que as rotações caiam demais entre as trocas. Assim, em algumas situações, como em subidas de serra, ocorre aquela incômoda alternância sucessiva entre duas marchas (quarta e terceira ou terceira e segunda), típica de veículos equipados com caixas automáticas de três ou quatro marchas, cujas relações muito longas acabam criando vazios entre elas. A central eletrônica até consegue fazer trocas desejáveis em certas situações, mas em outras, fica evidente que ela tem poucas opções (no caso, apenas quatro). Ao menos o funcionamento é suave, sem trancos durante as trocas. Nesse ponto, o resultado é muito superior ao do sistema automatizado de uma embreagem Eary’R que equipa os irmãos de plataforma Sandero e Logan. O 2.0 16V também gira liso, sem asperezas ou ruídos em demasia.

teste_renault_duster_at_3Acerto é bom

No mais, há pouco a reclamar do conjunto mecânico do Duster, que é simples, mas bem-acertado. A direção com assistência hidráulica é mais pesada que o desejável em manobras, mas adequadamente firme em alta velocidade, ao passo que os freios, com discos na dianteira e tambores na traseira, imobilizam o veículo com eficácia. O conjunto de suspensões, independente do tipo McPherson na dianteira e semi-independente por eixo de torção na traseira, entrega ótimo compromisso entre conforto e estabilidade. Em pisos desnivelados ou mal-conservados, a boa absorção de impactos faz com que os ocupantes não sofram com solavancos. Já em curvas, relativizando o centro de gravidade mais elevado, comum a qualquer SUV, a carroceria inclina pouco e só há subesterçamento perto do limite.

Além de amarrar o desempenho, o câmbio automático de quatro marchas também prejudica o consumo. Abastecido com gasolina, o Duster obteve em média 8,4 km/l na cidade e 10,2 km/l na estrada. Nunca é demais ressaltar que o gasto de combustível de qualquer veículo está relacionado a diversas variáveis, entre as quais as condições do tráfego, as características das vias e o estilo de condução do motorista.

teste_renault_duster_at_7Espaço e simplicidade

Por dentro, o Duster preserva os defeitos e qualidades de sempre. A posição de dirigir, mesmo sem a possibilidade de ajustar o volante (que, por sinal, tem ótima pegada) em profundidade – ele é regulável apenas em altura –, é correta e agradável. Os bancos apoiam bem o corpo, e o do motorista tem ajuste de altura.  Algumas falhas de ergonomia, porém, persistem, entre as quais o comando dos retrovisores elétricos posicionado abaixo da alavanca do freio de mão, os puxadores das portas dianteiras que bloqueiam em parte os botões dos vidros elétricos e a tecla “Eco” distante das mãos do motorista. O painel oferece leitura clara e objetiva, mas deixa de fora o termômetro do fluido de arrefecimento do motor.

teste_renault_duster_at_20O espaço é amplo nas duas fileiras de assentos, permitindo que quatro adultos viajem com conforto; mesmo com cinco pessoas a bordo, o resultado não chega a ser sacrificante. O quinto ocupante, entretanto, não contará com a proteção do cinco de três pontos: ali, o equipamento é sbabdominal. Ao menos, há encostos de cabeça para todos. O porta-malas, de 475 litros de capacidade, também é generoso. O acabamento ficou mais vistoso na linha 2016, graças à adoção de plásticos em preto brilhante na seção central do painel e nos puxadores das portas, mas permanece simples, nem tanto pela ausência de materiais emborrachados, mas principalmente pela presença de rebarbas e de parafusos à mostra em alguns locais.

Fazendo as contas

Assim como todo Duster Dynamique, o 2.0 automático traz direção hidráulica, vidros, travas e retrovisores elétricos, ar-condicionado manual, faróis de neblina, rodas de liga leve aro 16, alarme, sensores de estacionamento, computador de bordo e central multimídia com tela sensível ao toque (Media NAV) com GPS, Bluetooth, rádio, entrada USB, conectividade com iPhone e acesso às redes sociais, além dos obrigatórios por lei freios ABS e airbags frontais. O preço sugerido é de R$ 76.090. A unidade avaliada estava equipada com dois opcionais: o pack premium, que inclui controlador de velocidade e câmera de ré, por R$ 950, e os bancos revestidos em couro, por R$ 1.700.

teste_renault_duster_at_15Apesar do comportamento bem diferente da versão Dynamique 1.6 16V, nossa conclusão após dirigir o 2.0 16V automático é parecida: ele é muito caro frente a uma concorrência renovada. É verdade que o SUV da Renault tem atrativos, entre os quais o espaço interno amplo e a boa capacidade para enfrentar estradas de terra (não trilhas, que são mais adequadas à configuração 4×4), graças à altura livre do solo de 210 mm e aos ângulos de ataque, de 30°, e de saída de 34,5°. Porém, pouca oferta de equipamentos de segurança, o acabamento simples e o câmbio ultrapassado não justificam o preço de compra no mesmo patamar do praticado pelos rivais mais jovens.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 8 8
Consumo (cidade e estrada) 7 6
Estabilidade 7 7
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 7 8
Espaço interno 10 10
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 9 10
Acabamento 7 7
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8 8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 7
Relação custo/benefício 6 6

FICHA TÉCNICA

»MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.998 cm³ de cilindrada, 143 cv (g)/148 cv (e) de potência máxima a 5.750, 20,2 kgfm (g)/ 20,9 mkgf (e) de torque máximo a 4.000 rpm

»TRANSMISSÃO
Tração dianteira e câmbio automático de quatro marchas

»ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
12,1 segundos com gasolina e 11 segundos com etanol

»VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
170 km/h com gasolina e 176 km/h com etanol

»DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica variável

»FREIOS
Discos na dianteira e tambores na traseira, com ABS

»SUSPENSÃO
Dianteira, independente,  McPherson; traseira semi-independente, por eixo de torção

»RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve aro 16, pneus 205/60 R16

»DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,329; largura, 1,822; altura, 1,683; distância entre-eixos, 2,674; peso, 1.294 quilos

»CAPACIDADES
Tanque de combustível: 50 litros; porta-malas: 475 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 493 quilos

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos